“É muito importante incentivar que meninas e mulheres experimentem tecnologia. A mulher tem essa barreira porque sente que esse mundo não pertence a ela - todos estão dizendo que ela não deveria estar lá, que só tem homens naquele meio e que ele é hostil."


(Iana Chan, fundadora da PrograMaria)


A barreira enfrentada por mulheres - além da sensação de não-pertencimento - em relação ao mundo tecnológico, tem suas raízes ainda na infância, fase onde meninas raramente são incentivadas a se relacionar com as ciências exatas, seja em casa ou na escola.


“Se você olha a maneira como a gente educa crianças, já está estabelecido desde cedo - as meninas ganham bonecas, conjuntinho de panela, conjunto de chá para aprender a ser mãe, a servir e a ser dona de casa”, aponta Iana Chan, idealizadora da PrograMaria, projeto que empodera mulheres por meio da tecnologia. “O próprio computador, por muito tempo, foi considerado brinquedo de menino”.

Fonte: Pexels


Segundo experimentos conduzidos pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) com jovens de 15 anos residentes em 65 países, o diferente nível de aptidão de meninos e meninas no campo da matemática deve-se muito mais a essas diferenças culturais de criação, e não à falta de capacidade feminina.


Os estudos constataram ainda que questões como autoconfiança são fundamentais no processo de aprendizagem - e essas questões se estendem para outras fases da vida escolar/acadêmica, fazendo com que mulheres sejam submetidas a altos níveis de estresse e insegurança ao lidar com ciências exatas.


Entre os anos de 2002 e 2004, por exemplo, a Universidade de Tel Aviv utilizou um método de avaliação às cegas para identificar a estereotipação de gêneros na correção de provas de matemática de estudantes do ensino fundamental e médio: quando os professores sabiam a identidade dos alunos, meninos recebiam notas maiores que meninas, mesmo quando as respostas eram semelhantes. Ao se ocultarem as identidades, as meninas recebiam notas maiores. Um estudo feito por pesquisadores de ciência da computação chegou ao mesmo resultado, constatando que mulheres são consideradas melhores programadoras no Github - apenas quando não revelam seu gênero. 


Por terem sua capacidade subestimada ao lidar com ciências exatas, são poucas as meninas que pensam em seguir uma carreira em engenharia ou ciência da computação - dados do PISA apontam que menos de 5% das garotas residentes em países que compõem a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) consideram essas opções. Trazendo dados de 2012, o PISA aponta ainda que apenas 14% das mulheres que estavam na universidade pela primeira vez escolhiam campos relacionados com ciência (engenharia, indústria e construção). Entre os homens, esse número sobe para 39%.





Elas no comando

 Livia Soares é Head of Strategic Alliances da VTEX, plataforma de e-commerce, e é uma das poucas mulheres inseridas no mercado de tecnologia, trabalhando há onze anos com comércio eletrônico. “Em 2016, assumi a área de alianças e parcerias estratégicas com o objetivo de gerar negócios internos”, diz. “Esses projetos envolvem a parceria com marketplaces, meios de pagamento e alguns parceiros institucionais e agregadores ao nosso produto e ecossistema.”

 


Para Livia, ainda vivemos em um dos países que mais sofrem com o preconceito, especialmente quando se trata de mulheres que ocupam cargos de liderança. “Sempre levei a vontade de ser maior do que a cultura que me rodeia, e busco estar cercada de pessoas com os mesmo propósitos e pensamentos que eu tenho”. Ela acha ainda que é indispensável, na hora de escolher a carreira a ser seguida, levar em consideração se as empresas deste ramo enxerga a todos como iguais.  


Já Beatriz Bouskela administra a área de relacionamento do Catarse, e também faz parte do board de sócios da empresa de crowdfunding. Formada em Administração Pública, ela não teve quase nenhum contato com conceitos de UX ou programação durante a faculdade -  foi no próprio Catarse que adquiriu conhecimento sobre termos técnicos e como deveria priorizar os problemas dos usuários.


“No Catarse, buscamos ver todas as áreas de forma integrada, independente da formação de cada um”, diz.  “Assim, mesmo que você não seja um desenvolvedor ou um designer, o olhar constante sobre a usabilidade e sobre as interações dentro da plataforma são parte do dia-a-dia”.


Beatriz acredita ser necessário expor mais o tema tecnologia e referências femininas dentro da área, de forma a incentivar  mulheres a entrarem no cenário. “Vejo isso dentro da nossa própria equipe, seja por meio das nossas buscas por aulas do codecademy, de aventuras pontuais nos códigos de frontend ou nas edições do nosso metabase”.

No mercado de tecnologia, flexibilizar a vaga pode ser solução para atrair mais mulheres

Entre as maiores empresas de tecnologia do mundo, a proporção de mulheres não chega a 50% - o eBay é  a que mais se aproxima desse número, apresentando 43% de funcionárias em seu quadro.

Para Iana Chan, fundadora da PrograMaria, na hora da contratação não basta divulgar as vagas disponíveis em empresas de tecnologia - é necessário elaborar uma linguagem adequada para que mulheres se sintam incluídas na comunicação; além de oferecer espaço, autonomia e apoio para que elas cresçam dentro da companhia.

Iana aponta que, em ambientes de trabalho inclusivos, as mentorias são estratégias que têm dado certo. “Cada mulher que entra tem uma mentora, alguém que já conhece aquele ambiente, provavelmente já passou pelas mesmas dificuldades e consegue fortalecer mutuamente”, diz.

No Pagar.me, a recrutadora Michelle Adams conta que foram formados vários squads de recrutamento - um deles especializado em devs. “A partir daí, nós começamos a pensar em representatividade, conversamos com as mulheres e percebemos que a barra de seleção era diferente”.

Algumas das soluções encontradas para contratar mais mulheres para o time de tecnologia do Pagar.me foram, então, estabelecer contato com empresas que já mantêm programas de diversidade, além de questionar as próprias mulheres sobre como melhorar o approach de seleção.

A partir dessa abordagem, o Pagar.me espera que possa contribuir para a reversão do quadro atual, onde ainda há pouca representatividade feminina no mundo tecnológico, especialmente em cargos de gestão. 

 

 


 

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Karina Menezes
Graduada em jornalismo pela UFPA, foi trainee do jornal O Estado de S. Paulo. Atualmente, é Head de Conteúdo do Pagar.me.
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